SÃO PAULO — A variedade de letras, cores, matrizes e técnicas de impressão é o eixo de Visual Culture of Northeast Brazil – Cordel Edition, livro criado pelo designer alagoano Victor Yves a partir de cerca de 8.000 imagens de capas de cordel. O volume, publicado em inglês, reúne mais de 500 peças produzidas dos anos 1950 até hoje e apresenta o cordel como parte da história do design gráfico brasileiro.
Yves selecionou as capas pela diversidade tipográfica, e não pela fama dos cordelistas ou pela importância literária dos títulos. A análise passa por letras desenhadas à mão, tipos móveis, matrizes de madeira, diferenças de impressão e efeitos provocados pelo desalinhamento. “Minha escolha foi muito no sentido de diversidade de tipografia”, afirma.
Da feira ao arquivo digital
Nascido em Arapiraca, no interior de Alagoas, o designer conheceu o cordel nas feiras de rua que frequentava com o pai e também nas bancas de jornal. O interesse inicial era visual. Mais tarde, durante a formação em design gráfico, ele percebeu que aquela produção quase não aparecia no ensino acadêmico.
Por cerca de 15 anos, Yves guardou no computador reproduções encontradas principalmente em buscas online. No começo de 2025, a pasta chegou a cerca de 8.000 imagens. O acervo virou o site Arquivo Casca, organizado por autor, cor e tipo de produção gráfica.
Para preparar o livro, o designer consultou acervos e pesquisadores, entre eles o Instituto Brincante. O poeta e folclorista Marco Haurélio fez a revisão. A jornalista Olivia Hingley, do site britânico It’s Nice That, chamou atenção para a tipografia vernacular presente nas capas.
Um registro visual do país
O livro reúne trabalhos de J. Borges, Mestre Dila, Mestre Noza, José Costa Leite, Mestre Nunes e Mestre Expedito. Entre as imagens aparecem cangaceiros, diabos, santos, vaqueiros, bois, monstros e políticos. Os temas também incluem futebol, eleições, Plano Cruzado, Aids, o acidente com césio-137 em Goiânia, a chegada do homem à Lua e Roberto Carlos.
Yves entende que as capas formam um registro popular da história do Brasil, mas delimita sua abordagem ao campo do design gráfico. Ele espera que pesquisadores de outras áreas investiguem aspectos como a poesia e a simbologia do cordel.
Outro capítulo apresenta a ideia da “feira como museu”, aproximando a circulação tradicional dos folhetos nas feiras nordestinas dos zines vendidos em museus no exterior. “Achei bonito chamar de museu o mercado que é tão nosso, tão brasileiro”, diz o designer.
Edição brasileira e lançamento
O projeto foi autofinanciado e publicado pelo próprio Arquivo Casca. A tiragem foi de mil exemplares: 500 destinados ao mercado internacional, impressos na China, já se esgotaram, enquanto outros 500 foram produzidos no Brasil. O livro custa R$ 450.
No Brasil, a edição chega acompanhada de A Oficina Verbal das Capas, complemento de cerca de 90 páginas com traduções de textos do livro e conteúdos inéditos de Xico Sá, Isabelly Moreira, Chico Homem de Melo, DJ Dolores, Fausto Fawcett, Lirinha e Cristhiano Aguiar.
Produzido em Caruaru, o complemento foi impresso e encadernado na Casa do Cordel Mestre Dila por Waldênio Silva, neto do xilogravurista. O formato se aproxima do dos folhetos tradicionais e inclui um cordão lateral que funciona como marcador.
A ideia da publicação e da turnê brasileira partiu do artista e DJ Eduardo Beu, editor do complemento e curador do circuito. O projeto passará por quatro cidades. A primeira atividade será em São Paulo, na quinta-feira (1º), às 19h, no Jesuíno Brilhante, em Pinheiros. Participam da roda de conversa Victor Yves, Eduardo Beu, Xico Sá, Cristhiano Aguiar e o poeta e pesquisador Assis Ângelo.
Yves trata o livro como volume 1, porque considera que as 500 capas reunidas ainda representam uma parcela pequena do que existe.








