A independência brasileira fez parte de uma onda de transformações políticas que atravessou as Américas e o Caribe. A ruptura dos Estados Unidos com a Europa foi uma referência para grupos que defendiam mudanças no Brasil, mas não funcionou como modelo único para os movimentos que antecederam o 7 de Setembro.
A circulação de informações ganhou força à medida que o Brasil ampliava sua integração comercial com o mundo atlântico. Notícias sobre os Estados Unidos chegavam por cartas, livros e conversas. José Joaquim Maia e Barbalho, jovem médico, manteve correspondência com Thomas Jefferson e chegou a se encontrar com ele na França para discutir a situação brasileira. José Álvares Maciel, um dos principais nomes da Inconfidência Mineira, acompanhou da Inglaterra os acontecimentos nos Estados Unidos.
Revoltas e referências internacionais
A Inconfidência Mineira, que defendia a separação de Portugal e tinha Tiradentes entre seus líderes, ocorreu em 1789, 13 anos depois da independência americana. O movimento é apontado como um dos principais exemplos da influência das ideias que circulavam nos recém-criados Estados Unidos.
A Conjuração Baiana, em 1798, também defendia uma república e a abolição. O processo americano serviu de inspiração, mas a Revolução Haitiana teve impacto mais perceptível sobre os participantes da revolta, que contou com ampla presença de escravizados e de outras camadas populares.
Em 1817, a Revolução Pernambucana retomou referências dos Estados Unidos. Insatisfeitos com a Coroa portuguesa e seus gastos, os revoltosos pretendiam criar uma república federalista inspirada no modelo americano. Um emissário brasileiro foi enviado aos Estados Unidos e se reuniu com o secretário de Estado. O cônsul do país no Recife chegou a apoiar a revolta.
Uma influência entre várias
Para Mary Anne Junqueira, professora dos departamentos de história e relações internacionais da USP, o intercâmbio com os Estados Unidos foi importante, mas difuso. As reflexões europeias, como as de Montesquieu sobre a república, também estavam entre as referências dos inconfidentes.
A historiadora Kirsten Schultz, doutora em história da América Latina pela Universidade de Nova York e professora na Universidade Seton Hall, concorda que a experiência americana foi apenas uma das influências do período. Ela também destaca as revoluções Francesa e Haitiana como parte de um cenário em que o antigo regime começava a ruir para as grandes potências europeias.
Junqueira critica a ideia de que os Estados Unidos tenham sido um guia central para os processos emancipatórios. Para ela, essa interpretação resulta de uma “narrativa da nação” que “não corresponde à história”. A professora reconhece a importância da independência americana, mas afirma que ela não deve ser tratada como um modelo único para o Brasil.
Depois da separação de Portugal, o Brasil promulgou sua primeira Constituição, em 1824. Segundo Schultz, os Estados Unidos eram uma das configurações constitucionais disponíveis para estudo, sobretudo pelas ideias de representação, direitos e cidadania.
A independência brasileira, em 7 de setembro de 1822, também se inseriu nesse ciclo revolucionário. Os Estados Unidos foram o primeiro país a reconhecê-la. Para Junqueira, reconhecer novas independências nas Américas ajudava os americanos a confirmar a própria ruptura, diante do temor de uma reação europeia. Schultz acrescenta que a decisão também atendia aos interesses econômicos dos Estados Unidos e dos brasileiros que buscavam comerciar sem as restrições das políticas portuguesas.







