Cyrus Nowrasteh, diretor de Dark Horse, contestou nesta sexta-feira (11/9) o orçamento de US$ 24 milhões associado à cinebiografia de Jair Bolsonaro. Em uma publicação depois apagada, ele afirmou que a cifra era “ridiculamente inflada” e disse que os custos do longa ficaram abaixo dos valores de produção da maioria dos vencedores recentes do Oscar — possivelmente de todos eles.
O diretor não informou quanto foi gasto efetivamente. Pela comparação apresentada, o custo poderia ser inferior a US$ 1,5 milhão, valor atribuído à produção de Moonlight: Sob a Luz do Luar, o menor orçamento entre os filmes citados. Os números usados na lista dizem respeito à produção e não incluem marketing ou distribuição.
Projeções de bilheteria e divergências
Documentos tornados públicos mostram que o plano de negócios de Dark Horse considerava três cenários de arrecadação. A projeção mais baixa era de US$ 45 milhões. A previsão intermediária chegava a US$ 70 milhões, enquanto a mais alta alcançava US$ 100 milhões. O material foi apresentado pelo publicitário Thiago Miranda, apontado pela Polícia Federal como articulador do financiamento.
A Polícia Federal comparou essas estimativas com o desempenho de Minha Mãe é uma Peça 3 (2019), que arrecadou aproximadamente R$ 120 milhões, ou cerca de US$ 30 milhões na época. No relatório, a corporação afirmou que a diferença entre as projeções e parâmetros considerados realistas do mercado nacional justificava investigar a viabilidade econômica e a finalidade da operação.
A Europa Filmes, responsável pela distribuição brasileira, trabalha com números menores. O planejamento previa o lançamento em pelo menos 650 salas. No cenário mais baixo, a expectativa era de cerca de 800 mil espectadores. A estimativa considerada realista ficava entre 1,5 milhão e 2 milhões de ingressos, e a mais alta previa público superior a 2 milhões.
Valores apresentados para a produção
Os US$ 24 milhões apareceram em maio, durante negociações conduzidas por Flávio Bolsonaro para financiar o longa. A previsão inicial variava entre US$ 23 milhões e US$ 26 milhões. Dois dias depois, o senador confirmou o orçamento previsto e declarou: “não houve captação disso tudo”. Segundo Flávio, Daniel Vorcaro havia investido pouco mais de US$ 12 milhões.
Em delação premiada homologada por André Mendonça, Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como o Mineiro, relatou sete transferências determinadas por Vorcaro ao Havengate Development Fund, criado nos Estados Unidos para financiar o filme. Os repasses somaram US$ 12,3 milhões. O 7º, de US$ 1,66 milhão, ocorreu em setembro de 2025.
Uma perícia privada encomendada pela Go Up Entertainment apontou gastos de US$ 13.393.081,29 até 4 de junho, equivalentes a aproximadamente R$ 75 milhões. Desse montante, US$ 9,66 milhões teriam sido pagos nos Estados Unidos e US$ 3,73 milhões no Brasil.
Estreia sem nova data
A manifestação de Nowrasteh ocorreu no dia originalmente previsto para a estreia do filme. Jim Caviezel, que interpreta Jair Bolsonaro, havia divulgado 11 de setembro como data de lançamento nos Estados Unidos. O plano foi abandonado, e a distribuidora ainda não concluiu os procedimentos necessários para levar a produção aos cinemas.
A Ancine concedeu em 7 de agosto o Registro de Obra Estrangeira, primeira etapa da regularização. A Europa Filmes ainda precisa solicitar o Certificado de Registro de Título. Em 4 de setembro, a agência informou que o pedido não havia sido apresentado. Depois disso, o longa ainda deverá obter classificação indicativa no Ministério da Justiça.
A Ancine também mantém um processo administrativo contra a Go Up Entertainment. As filmagens no Brasil ocorreram sem a comunicação prévia exigida pela agência. A eventual multa varia de R$ 2 mil a R$ 100 mil, e a concessão do registro não encerrou o procedimento.
Investigações no Supremo
Dark Horse é alvo de duas investigações no Supremo Tribunal Federal. A frente relatada por Flávio Dino apura suspeitas de desvio de recursos públicos de emendas parlamentares e possível transferência de dinheiro para empresas ligadas ao filme. Na quinta-feira (10/9), a Operação Make Up cumpriu 49 mandados de busca e apreensão, incluindo ordens contra Mario Frias e Karina Ferreira da Gama.
A Polícia Federal investiga possíveis crimes de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e irregularidades em licitações. Outra investigação, sob responsabilidade de André Mendonça, examina o financiamento do filme com recursos de Daniel Vorcaro e do Banco Master.
Flávio Bolsonaro passou a ser formalmente investigado nesse inquérito em 22 de julho, após a autorização de Mendonça para apurar suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos ligados à captação. Os investigadores o apontam como interlocutor nas negociações do orçamento.
O presidente do STF, Edson Fachin, pediu a retirada do sigilo de partes não sensíveis das apurações. Mendonça liberou 15 procedimentos, mas manteve sob sigilo o inquérito que investiga Flávio. A abertura parcial confirmou oficialmente a existência da investigação contra o senador.







