O livro 1929, do jornalista Andrew Ross Sorkin, reconstitui o colapso da Bolsa de Nova York a partir de documentos inéditos e concentra a investigação no comportamento da elite financeira e política diante da crise. A obra sustenta que o sistema já estava condenado antes da queda das ações, pressionado por alavancagem excessiva, manipulação de mercado e uma cultura de impunidade em Wall Street.
Entre 24 e 29 de outubro de 1929, a bolha especulativa formada pelo crédito abundante dos anos anteriores estourou. Em apenas dois dias, o índice Dow Jones caiu 23%. Nos três anos seguintes, perdeu 90% do valor, enquanto milhares de empresas e bancos faliram e milhões de pessoas ficaram desempregadas. O período passou à história como a Grande Depressão.
Documentos e sinais ignorados
Sorkin, editor da coluna de negócios do The New York Times e autor de Too Big to Fail (Grande Demais para Falhar), reuniu diários, cartas pessoais, registros fiscais, documentos corporativos e memorandos internos do Federal Reserve, o Banco Central norte-americano.
Um memorando do início de 1929 mostra que o Fed reconhecia a formação de uma bolha e recomendava restringir o crédito para a compra de ações, além de elevar os juros. O documento da distrital de Nova York apontava o crescimento insustentável dos empréstimos e investidores movidos por confiança exagerada e expectativas irreais de valorização. O receio de Washington de que uma intervenção mais dura fosse interpretada como interferência impediu uma reação mais firme.
Em meados de março, Charles Mitchell, presidente do National City Bank e um dos principais defensores da expansão do crédito especulativo, demonstrou preocupação com a falta de ação do Fed. George Harrison, então presidente do Fed de Nova York, tentou tranquilizá-lo. Mesmo depois de um memorando alertar que a continuidade do crédito deixaria o sistema vulnerável a uma correção severa, Mitchell foi autorizado a ampliar os empréstimos.
Banqueiros e conflitos de interesse
Mitchell aparece como uma figura central da crise. Cartas e documentos corporativos mostram sua atuação agressiva na oferta de empréstimos que permitiam comprar ações com garantias mínimas, criando uma estrutura dependente da continuidade da euforia.
Thomas Lamont, sócio sênior da J.P. Morgan, surge tentando conciliar interesses públicos e privados, embora seus documentos pessoais registrem preocupação crescente com a especulação e frustração diante da hesitação do governo.
Richard Whitney, presidente da Bolsa de Nova York, é apresentado como símbolo da corrupção institucional. Ele teria usado fundos da própria Bolsa como garantia para empréstimos pessoais e coordenado manipulações de preços com outros operadores.
O caso de Albert Wiggin, presidente do Chase National Bank, ocupa lugar central. Com base em registros fiscais e documentos corporativos, Sorkin descreve a criação de uma empresa fantasma no Canadá para vender ações do próprio banco sem garantia, lucrar com a queda dos papéis e evitar impostos.
A investigação também se debruça sobre a psicologia dos banqueiros e especuladores. A crença na própria excepcionalidade, a negação dos riscos e a convicção de que os ciclos econômicos poderiam ser controlados ajudaram a sustentar uma bolha sem base nos fundamentos econômicos. Para a elite retratada no livro, aquela era uma nova era de prosperidade permanente. A crise mostrou o contrário.
1929. Andrew Ross Sorkin. Tradução de Berilo Vargas, Pedro Soares e Laura Motta. Companhia das Letras. 504 págs., 99,90 reais.








