FORTALEZA — Um vídeo do NAPALM DEATH, publicado nas redes sociais desde 15 de julho de 2026 e próximo de 1,5 milhão de visualizações, reacendeu a comparação entre apresentações de metal extremo em ambientes de escritório e o formato Tiny Desk. Em Fortaleza, encontros semelhantes já reuniam músicos e público antes da popularização desse modelo na internet.
A iniciativa cearense ocorreu aos sábados, de 1994 a 1997, no escritório de advocacia de Assis Mendonça, na rua Azevedo Bolão, 733 – altos, no bairro Parque Araxá. O local recebia ensaios do OBSKURE e, depois, do SIEGE OF HATE (S.O.H.). No térreo do prédio, funcionavam o Bar do Ney ou a Bodega do Gilson, onde também havia happy hour.
Na época, o OBSKURE se preparava para gravar seu primeiro álbum, “Overcasting”. Mais tarde, os ensaios do SIEGE OF HATE reuniram as músicas que formariam a primeira demo-tape do grupo, “Return to Ashes”. Os encontros atraíam um público selecionado e fiel, interessado em acompanhar de perto o trabalho das bandas.
O formato que veio depois
O Tiny Desk foi criado pela rádio estadunidense RPR em 2008. A versão brasileira começou em outubro de 2025, com uma apresentação de João Gomes, seguida por participações de Péricles, Céu, Metá Metá e Ney Matogrosso, entre outros nomes.
O modelo propõe apresentações intimistas em um estúdio que simula um escritório. O vídeo do NAPALM DEATH, quarteto britânico de grindcore-death, ou deathgrind, levou esse tipo de registro à cena do metal extremo.
A diferença entre os ensaios em Fortaleza e as produções atuais está também na forma de circulação. Na década de 1990, a internet ainda começava a se estabelecer no Brasil. Blogs, fotologs e coletivos digitais se espalhariam nos anos 2000, antes da chegada do Orkut, do Facebook e do Youtube como referências das mídias sociais.
O formato Tiny Desk ganhou ampla circulação durante o período pandêmico, entre 2020 e 2022, quando lives e festivais passaram a ser produzidos para a internet sem público nos locais de gravação. Já os encontros do Parque Araxá dependiam da presença física e da convivência entre artistas e espectadores.
Amaudson Ximenes Veras Mendonça, fundador do OBSKURE e da Associação Cultural Cearense do Rock (ACR), é sociólogo e pesquisador.







