Um ruído de feedback ouvido no primeiro segundo de “I Feel Fine” ajudou os Beatles a explorar um recurso que ganharia espaço na guitarra elétrica. A descoberta aconteceu durante as gravações da música, em 1964, quando a banda ainda estava distante das experiências de estúdio que marcariam “Revolver” e “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band”.
John Lennon havia encostado sua guitarra semiacústica Gibson perto do amplificador. O instrumento começou a realimentar o sinal, produzindo um som sustentado que normalmente seria eliminado de uma gravação. Em vez disso, o grupo decidiu aproveitar o efeito e colocá-lo na abertura da faixa, antes da entrada do riff.
A provocação de Lennon
Lennon passou a defender a novidade com orgulho. Em 1980, desafiou qualquer pessoa a encontrar um disco anterior que usasse feedback daquela forma e afirmou que os Beatles tinham feito isso “antes de Hendrix, antes do Who, antes de qualquer um”.
George Harrison levou a ideia para o humor ao lembrar o episódio anos depois. Segundo o guitarrista, a banda já experimentava feedback nos palcos, mas Lennon teria transformado aquela descoberta em algo maior: “ele inventou Jimi Hendrix”.
A frase não representa uma reivindicação literal sobre a criação da linguagem de Hendrix. Poucos anos depois, o guitarrista americano faria do feedback, da distorção e do controle dos amplificadores elementos centrais de seu estilo, explorando esses recursos de maneira que os Beatles não tentaram.
“I Feel Fine” também nasceu de referências anteriores. Harrison contou que o riff foi inspirado por “Watch Your Step”, de Bobby Parker. McCartney, por sua vez, associou a bateria de Ringo Starr à influência do R&B de “What'd I Say”, de Ray Charles.
Assim, uma música construída a partir do blues e do R&B ficou marcada por um efeito que apontava para outra direção. O som surgiu quase por acidente, mas permaneceu na gravação e ganhou, na lembrança bem-humorada de Harrison, uma ligação com um dos guitarristas que transformariam o rock.







