A capa colorida de uma edição de Noites Brancas foi a porta de entrada do brasileiro Marcelo Nogueira na obra de Fiódor Dostoiévski. O influenciador literário, que não se considera um leitor assíduo de clássicos, encontrou no romance uma história de amor e solidão que ganhou força entre a Geração Z no TikTok.
A Editora 34 registrou alta de 463% nas vendas do livro em 2025 e trabalha com a possibilidade de superar esse resultado neste ano. O romance também aparece entre os mais vendidos no Reino Unido e na Espanha. No Rio de Janeiro, a edição ficou esgotada em várias livrarias.
Uma leitura breve e intensa
A narrativa acompanha um sonhador que conhece uma jovem nas ruas de São Petersburgo do século XIX. O encontro se desenvolve ao longo de quatro noites e uma manhã, período em que o protagonista deixa a vida imaginada para experimentar uma relação concreta. A paixão, porém, é marcada pela brevidade.
A identificação de leitores jovens com esse personagem é apontada como um dos motores do sucesso. Para Marcelo Nogueira, a figura de alguém solitário e em busca de afeto se aproxima de sentimentos presentes entre muitos jovens. Uma frase do protagonista, sobre a possibilidade de viver um minuto de felicidade, está entre os trechos mais compartilhados nas redes.
No BookTok, comunidade literária do TikTok, dezenas de milhares de comentários discutem o romance. Usuários descrevem a obra como uma representação poética da vida real e relatam forte identificação com o personagem central.
A influenciadora Paloma Lima disse que muitos jovens chegaram ao seu canal no YouTube depois de ler Noites Brancas. Segundo ela, o tamanho reduzido e a intensidade da narrativa ajudam a explicar a circulação do livro, que também se encaixa em padrões de enredo populares na plataforma, como o romance entre amigos.
O caminho até outros clássicos
O interesse pelo livro alcançou também obras mais extensas de Dostoiévski. Danilo Hora, da Editora 34, informou que as vendas de Crime e Castigo cresceram 53% no Brasil nos primeiros sete meses do ano.
Na Rússia, a repercussão surpreendeu a escritora Ekaterina Kvitko. Ela contou que o entusiasmo não costuma aparecer entre os jovens russos e relacionou o fenômeno à história de um protagonista sozinho, que procura uma forma de amor. O acesso ao TikTok é restrito no país.
Para Marcelo Nogueira, as redes ajudam a transformar a leitura em uma identidade associada a imagens, vídeos e capas de livros. Ele também observa que o exemplar físico pode chamar mais atenção do que um leitor digital, especialmente quando traz uma apresentação visual marcante.
A pesquisadora e tradutora de literatura russa Cecília Rosas celebrou a atenção renovada aos clássicos, mas ressaltou a necessidade de separar a crítica literária do conteúdo promocional que muitas vezes domina as redes sociais.








