Em Um Homem Bom, Waldomiro J. Silva Filho acompanha um professor universitário marcado pela culpa de ter sobrevivido à ditadura no Brasil. Depois de passar por inúmeras sessões de tortura, o personagem convive com um trauma que não se encerra com a sobrevivência: ele se afasta do mundo, mergulha em uma depressão reflexiva e tenta compreender a própria condição humana.
A narrativa é conduzida em primeira pessoa, com uma escrita precisa e contida. O protagonista observa o que restou de si depois da violência e transforma essa experiência em investigação intelectual. Como resume o narrador, “Todo sobrevivente deixa para trás mais do que poderá ter pela frente”.
Entre testemunho e ficção
O livro se aproxima dos estudos sobre os sobreviventes do Holocausto, sobretudo por meio de Jean Améry, ensaísta austríaco que passou pelo campo de concentração de Auschwitz e depois se suicidou. O professor também luta para concluir a leitura de É Isto Um Homem?, de Primo Levi, e encontra em W. G. Sebald uma espécie de interlocutor literário.
A influência de Sebald aparece tanto na estrutura da obra quanto na presença de fotografias em preto e branco. Produzidas pelo narrador em Camacã, na Bahia, as imagens evocam o real, mas também mantêm aberta a dúvida sobre o que está sendo lido: uma história vivida ou uma construção ficcional? A prosa se aproxima do ensaio sem abandonar a narrativa.
O tempo presente da história é 2001, em Salvador. O personagem deixou Camacã ainda adolescente para estudar. Em outro momento, a narrativa chega a São Paulo, em 1995, onde a ausência da praia e da luz intensifica o tom sufocante do texto. “Então o meu texto fica assim, monótono, lamuriento, rodopiando”, afirma o narrador.
A melancolia do romance também se manifesta nas canções evocadas, com destaque para Belchior. O sofrimento provocado pelas ditaduras aproxima o personagem das literaturas de testemunho e desloca a pergunta central: em vez de apenas investigar o que é um homem, o livro procura saber o que seria um homem bom.
Um Homem Bom — Waldomiro J. Silva Filho. Companhia das Letras. 160 págs., 74,90 reais.








