Keith Richards descobriu, ao gravar seu primeiro álbum solo, que conseguia seguir na música sem depender dos Rolling Stones. A percepção mudou sua relação com a banda e ajudou a preparar o retorno do grupo depois de um período de tensão com Mick Jagger.
A crise vinha se arrastando durante boa parte dos anos 1980. Jagger investia na carreira solo, Richards reagia com irritação e, após “Dirty Work”, de 1986, os Stones praticamente pararam de funcionar. Nesse cenário, o guitarrista montou outra banda e iniciou a gravação de “Talk Is Cheap”.
Lançado em 1988, o disco foi feito com Steve Jordan e os músicos que depois seriam conhecidos como X-Pensive Winos. Richards descreveu a experiência como uma espécie de libertação: “Aquilo me trouxe de volta à vida. Senti como se tivesse acabado de sair da prisão”.
Uma nova confiança
Em entrevista de 1988, Richards contou que ficar sem atuar de fato nos Rolling Stones havia sido doloroso. “No começo, quase partiu meu coração”, afirmou. Ao mesmo tempo, o trabalho solo mostrou que ele poderia existir musicalmente fora da banda. “Descobri que, se precisar, consigo viver sem os Rolling Stones”, disse.
A autonomia também alterou seu processo de composição. Richards explicou que costumava escrever pensando em Jagger como intérprete. Sem precisar se adaptar ao funcionamento dos Stones, pôde seguir melodias, estruturas e caminhos que talvez não coubessem no repertório do grupo.
A relação com Jagger, porém, não se resolveu de imediato. Richards contou que tocou o álbum para o vocalista, que passou boa parte da audição conversando. Ao sair da sala, o guitarrista o viu dançando ao som do disco; quando voltou, Jagger estava sentado novamente, como se nada tivesse acontecido.
No ano seguinte, os Rolling Stones retornaram com “Steel Wheels” e retomaram as grandes turnês. “Almost Hear You Sigh”, incluída no álbum, tinha raízes nas sessões de “Talk Is Cheap”. Para Richards, o disco acabou produzindo um efeito inesperado: ao perceber que não precisava da banda para continuar, ele se tornou capaz de querer estar nela outra vez. A experiência, resumiu, talvez o tivesse transformado em “um Rolling Stone melhor”.







