Mais de um terço das mulheres com deficiência no Brasil já sofreu violência doméstica cometida por homens. O índice chega a 38%, acima dos 28% registrados entre mulheres sem deficiência, segundo pesquisa do DataSenado.
O levantamento ouviu 2.828 mulheres com deficiência. Esse grupo representa 13% da amostra e corresponde a um universo estimado de 11,7 milhões de brasileiras. Entre as entrevistadas, 19% afirmaram ter sofrido agressões nos últimos 12 meses. Para 69% delas, a violência dura há mais de um ano.
A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher é realizada pelo DataSenado e pelo Observatório da Mulher contra a Violência (OMV). Esta foi a primeira edição a incluir a autoidentificação de pessoas com deficiência. Ao todo, participaram 21.641 brasileiras com 16 anos ou mais, em entrevistas realizadas entre 16 de maio e 8 de julho de 2025. A margem de erro geral é de 2 pontos.
Tipos de violência e idade das vítimas
Entre as mulheres com deficiência que sofreram violência, os relatos de agressão sexual e patrimonial aparecem em proporção maior que entre as mulheres sem deficiência. A violência sexual foi mencionada por 39% das vítimas com deficiência, ante 28% das demais. A violência patrimonial alcançou 46%.
Em 65% dos casos, o agressor era o marido ou companheiro da vítima no momento da agressão mais grave. Para 36% das vítimas, o primeiro episódio aconteceu até os 19 anos. Outras 24% sofreram a primeira agressão entre 20 e 29 anos.
Maria Slemenson, superintendente do Instituto Natura Brasil, afirma que a combinação de capacitismo e machismo pode aumentar o controle sobre essas mulheres e limitar sua autonomia. Ela chama atenção para situações em que telefone, documentos ou dinheiro são controlados sob a justificativa de cuidado ou proteção.
Talita Oliveira, analista e assistente social do OMV do Senado Federal, relaciona a maior ocorrência de violência sexual e patrimonial às barreiras históricas enfrentadas pelas mulheres com deficiência. Ela também aponta que a dependência econômica ou de cuidados pode restringir o acesso a recursos e benefícios como o BPC.
Reconhecimento e busca por ajuda
Apenas 7% das mulheres com deficiência que passaram por situações compatíveis com agressão se reconheceram como vítimas. A dificuldade de identificar a violência pode ser agravada quando comportamentos de controle e coerção são tratados como parte da rotina ou como formas de cuidado.
O desconhecimento sobre os mecanismos de proteção também é maior nesse grupo. Cerca de 18% das entrevistadas com deficiência disseram não ter nenhum conhecimento sobre a Lei Maria da Penha, o dobro dos 9% observados entre mulheres sem deficiência. Sobre as medidas protetivas de urgência, 23% afirmaram desconhecer completamente o mecanismo, ante 15% entre as mulheres sem deficiência.
Quando a violência acontece, 83% das vítimas com deficiência não denunciam. Apenas 16% procuraram o Ligue 180. Entre as mulheres que pediram medida protetiva de urgência, 19% disseram que o agressor descumpriu a ordem.
As barreiras de comunicação e a falta de privacidade podem dificultar o pedido de ajuda. Uma mulher surda pode precisar de um meio específico para se comunicar, enquanto uma mulher com deficiência intelectual pode ter dificuldade para explicar o que ocorreu. Quando o agressor controla o telefone ou o celular, a denúncia pode representar um risco elevado.
Dependência financeira e condições de vida
A pesquisa mostra que 78% das mulheres com deficiência não exercem trabalho remunerado — cerca de 2.206 das 2.828 entrevistadas. Outras 48%, aproximadamente 1.357 mulheres, não conseguem se sustentar financeiramente. Entre as mulheres sem deficiência, esse índice é de 31%.
A renda familiar também é baixa: 80% vivem com até dois salários mínimos, enquanto apenas 3% estão em famílias com renda superior a seis salários mínimos. Entre as que trabalham, 46% atuam por conta própria; desse grupo, 72% estão na informalidade.
Na escolaridade, 10% declararam não ser alfabetizadas e apenas 11% concluíram o ensino superior. Para 29% das mulheres com deficiência, o ambiente familiar é o espaço de maior desrespeito, ante 21% entre as mulheres em geral.
A percepção sobre o machismo também aparece nos resultados: 72% consideram o Brasil um país muito machista e 56% avaliam que as mulheres não são tratadas com respeito. Entre as entrevistadas com deficiência, 55% se autodeclararam pretas, pardas ou indígenas e 45%, brancas ou amarelas.
Maria Slemenson defende que os serviços públicos levem em conta as necessidades específicas dessas mulheres, com informação, atendimento acessível e profissionais preparados. Talita Oliveira afirma que as próprias mulheres com deficiência precisam participar da formulação das políticas públicas que afetam suas vidas.







