VENEZA — A Jigsaw Productions recebeu uma notificação jurídica antes da estreia de “Musk”, documentário dirigido por Alex Gibney sobre a trajetória empresarial e política de Elon Musk. O advogado Alex Spiro acusa a produção de divulgar informações falsas e potencialmente difamatórias e exige a preservação de materiais ligados ao filme para uma eventual disputa judicial.
A carta foi enviada em 3 de setembro, cinco dias antes da apresentação em Veneza, e também chegou a empresas envolvidas na distribuição e divulgação, como HBO, Bleecker Street e Universal. A principal objeção está numa sequência que relaciona um depoimento sobre Musk à Starlink, rede de satélites da SpaceX, e a uma possível interferência na eleição presidencial americana de 2024.
A sequência contestada
Ashley St. Clair, ex-parceira de Musk e mãe de um de seus filhos, conta no filme que trocou mensagens com o empresário em outubro de 2024, semanas antes da eleição vencida por Donald Trump. Segundo ela, Musk teria falado em “liberar a anomalia na Matrix” e dito possuir “10 mil lasers no espaço”. Ao ser questionada por Gibney sobre uma possível referência aos satélites da SpaceX, St. Clair afirma que não sabia onde mais Musk teria lasers.
Spiro sustenta que a montagem produz uma insinuação falsa sobre a Starlink e a apuração dos votos. Autoridades eleitorais e especialistas em segurança rejeitaram, depois da eleição de 2024, teorias de que a rede teria sido usada para alterar a contagem. Na carta, o advogado afirma: “Este projeto não começou como uma investigação. Começou com uma conclusão”.
Após a estreia, Musk atacou Gibney em publicações no X. Chamou o diretor de “velho amargo” e “ser humano horrível”, além de dizer que o cineasta não possui “integridade nenhuma”. Também classificou o documentário como um ataque deliberado e ironizou sua duração de quase quatro horas.
Produção e resposta da Jigsaw
O filme reúne depoimentos de Justine Musk, Errol Musk, St. Clair, Martin Eberhard, Kara Swisher, Zoë Schiffer e Geoffrey Hinton. Gibney contou em Veneza que enfrentou resistência para obter entrevistas e que havia medo de falar entre críticos, colegas de negócios e amigos do empresário.
O diretor disse ter procurado Musk no início do projeto, em 2023, mas não conseguiu entrevistá-lo. Uma versão digital do empresário, criada com inteligência artificial, reproduz declarações reais feitas por ele ao longo dos anos. Com 225 minutos, a produção passa por Tesla, SpaceX, a compra do Twitter — depois transformado em X — e a aproximação de Musk com Donald Trump.
Gibney, vencedor do Oscar de Melhor Documentário por “Um Táxi para a Escuridão” (2007), afirmou que consultou advogados durante a produção e recebeu autorização jurídica para concluir o filme.
A Jigsaw defendeu o trabalho do diretor e disse que seus documentários são baseados em investigações aprofundadas sobre pessoas e instituições poderosas. A produtora também afirmou que a liberdade de expressão e o debate aberto sobre figuras públicas são protegidos pela 1ª Emenda da Constituição americana.
“Musk” estreia em circuito limitado nos Estados Unidos em 16 de outubro e amplia a distribuição uma semana depois. Ainda não há lançamento confirmado no Brasil.







