A demissão de Mick Jones, anunciada por Joe Strummer e Paul Simonon em setembro, encerrou a formação clássica do Clash depois de uma sequência de conflitos internos. A crise se aprofundou durante a preparação de Combat Rock, quando os dois principais compositores passaram a defender caminhos diferentes para o disco.
Duas versões para o mesmo álbum
No fim de 1981, Jones dizia ter chegado primeiro à banda. Strummer sustentava que, sem sua presença, o grupo nem existiria. Em cinco anos, o Clash havia deixado os clubes de Londres e alcançado o posto de estrela global do rock, enquanto o desgaste aumentava com a exaustão, a pressão comercial, as divergências ideológicas e o abuso de drogas.
Para concluir o novo trabalho, os dois fizeram mixagens separadas. Jones, interessado em hip hop, levou o material para um estúdio e voltou com uma versão marcada por dance music e dub. Strummer considerou o resultado confuso, e a gravadora recusou o material. A CBS então chamou Glyn Johns, engenheiro de som que já havia trabalhado com Rolling Stones, Beatles, Led Zeppelin, Eagles, The Who e Jimi Hendrix.
Johns conhecia pouco do punk e inicialmente olhava o gênero com desdém. Depois de ouvir as gravações, mudou sua avaliação. “foi uma agradável surpresa”, escreveu o engenheiro em seu livro autobiográfico, citado por Júlio Ettore em um vídeo sobre o episódio.
A reunião sem o guitarrista
A decisão seguinte ampliou o racha. Jones não apareceu à reunião marcada para discutir o trabalho. Johns e Strummer aproveitaram a ausência para cortar partes de várias faixas e transformar o projeto em um álbum simples, em vez do disco duplo defendido pelo guitarrista.
Jones chegou ao estúdio às sete da noite, quando o trabalho já estava concluído. Johns contou que o músico sugeriu mudanças em cada faixa e ouviu que suas propostas poderiam ter sido consideradas se ele tivesse chegado às dez da manhã, junto dos demais. Depois disso, Jones desistiu de opinar sobre o disco.
Apesar do conflito, Combat Rock se tornou o maior sucesso comercial do Clash, entrou no top 10 dos Estados Unidos e do Reino Unido e produziu “Rock the Casbah” e “Should I Stay or Should I Go”. Dias antes do lançamento, em maio de 1982, Topper Headon foi demitido por não conseguir superar a dependência de heroína. Terry Chimes, baterista original do grupo, assumiu a função.
O palco antes da ruptura
O rompimento ganhou forma definitiva em maio de 1983, durante o US Festival, na Califórnia. O Clash aceitou meio milhão de dólares para encabeçar o Punk Day, desde que parte do lucro fosse destinada a instituições de caridade. Quando o acordo foi cancelado em cima da hora, a banda ameaçou não tocar.
O grupo entrou no palco com duas horas de atraso, diante de 140 mil pessoas. Strummer evitava a aproximação de Jones, e os dois discutiram durante as músicas. Em setembro, Strummer e Simonon anunciaram a demissão do guitarrista.
A tentativa de continuar sem Jones resultou em Cut the Crap, lançado em 1985. O álbum teve vendas razoáveis, mas recepção desastrosa. O último show ocorreu em julho daquele ano, na Grécia, e o Clash se dissolveu no início de 1986.
Jones passou a trabalhar com o Big Audio Dynamite. Em 1991, “Should I Stay or Should I Go” chegou ao primeiro lugar britânico. Os dois ex-companheiros ainda dividiram um palco pela última vez em 2002, poucos meses antes da morte de Strummer, em dezembro daquele ano.







