Roger Moreira contou como surgiram três músicas conhecidas do Ultraje a Rigor: “Inútil”, “Eu Me Amo” e “Ciúme”. Em conversa com o podcast Papagaio Falante, o vocalista explicou que nenhuma delas começou com uma ideia musical. As letras nasceram de notícias, leituras, situações do cotidiano e inquietações da juventude.
“Inútil” foi construída a partir do noticiário econômico e social do começo dos anos 1980. Roger reuniu referências ao endividamento do Brasil com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a dados sobre a saúde bucal da população. “Tudo isso era tirado das notícias que rolavam na época”, afirmou.
A composição chamou a atenção de André Midani, então diretor da gravadora, que defendeu seu lançamento. O compacto, porém, vendeu pouco naquele momento. A justificativa recebida pela banda foi comercial: o formato tinha boa saída na zona leste de São Paulo, enquanto o Ultraje a Rigor era associado à zona sul. Mais tarde, a música se tornou um fenômeno.
De um adesivo ao amor-próprio
“Eu Me Amo” nasceu do encontro entre um livro de análise psicológica e um adesivo de para-choque. Roger lia sobre o caráter autodepreciativo de muitas canções românticas quando viu, em um carro, uma frase que o levou à ideia de escrever algo como “I love myself”. A partir daí, decidiu inverter a lógica dessas músicas.
A origem de “Ciúme” remonta à adolescência do cantor. Embora ele situe a composição em 1982 ou 1983, a ideia veio de quando tinha 16 anos, em um período no qual o feminismo ganhava espaço nas conversas da juventude brasileira e os comportamentos mudavam entre namoradas e namorados.
A faixa acabou impulsionando o disco de estreia. Roger disse que a música funcionou por expressar, de maneira simples e em linguagem de rock and roll, uma sensação compartilhada por uma geração.
Aos 68 anos na época da entrevista, o vocalista reconheceu que a letra seria recebida de outro modo hoje. Para ele, a diferença está também na posição de quem fala: fazer graça com a juventude nessa idade poderia soar como uma fala de cima para baixo, algo que, nos anos 1980, não acontecia porque ele descrevia a si mesmo e aos próprios amigos.







