RIO DE JANEIRO — A trajetória de Zuenir Ventura foi lembrada por colegas, amigos, familiares e artistas durante o velório realizado na Academia Brasileira de Letras (ABL). Jornalista, escritor e acadêmico, ele morreu na terça-feira (22), aos 95 anos, e foi sepultado no mausoléu da instituição, em Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Zuenir ocupava a cadeira 32 da ABL.
A jornalista e escritora Míriam Leitão, colega de Zuenir no jornalismo e na Academia, afirmou que a despedida reunia diferentes gerações ligadas ao trabalho do escritor. “Várias gerações foram afetadas pela gentileza e generosidade de Zuenir”, disse.
Entre os presentes estavam o prefeito do Rio, Eduardo Cavaliere, e o secretário de cultura Lucas Wosgrau Padilha. O caixão foi coberto por uma bandeira do Fluminense Football Club.
Memória entre colegas e discípulos
Filho de Zuenir, o jornalista Mauro Ventura falou sobre a influência do pai dentro e fora da família. Ele contou que ouviu histórias de amigos capazes de provocar risos mesmo durante o momento de dor e mostrou um bloco com anotações dessas lembranças.
Mauro também associou o hábito de registrar histórias à maneira como o pai trabalhava. Para ele, continuar escrevendo e observando era uma forma de seguir os passos de Zuenir.
Colega do acadêmico na ABL desde 2022, Gilberto Gil definiu o jornalista como um “militante cultural”. O compositor contou que se aproximou de Zuenir quando se mudou para o Rio, em 1972, e destacou a delicadeza e a capacidade de acolhimento do escritor.
Paulinho da Viola conheceu Zuenir na década de 1960, quando os dois conversavam sobre o momento político e a perseguição aos artistas. Zuenir ainda escreveu o roteiro do documentário “Paulinho da Viola —Meu tempo é hoje” (2003), dirigido por Izabel Jaguaribe.
Livros e atuação pública
Merval destacou obras como “Cidade Partida”, “1968 - O ano que não terminou” e “Chico Mendes - Crime e castigo”. Para ele, os livros de Zuenir permanecem fundamentais para compreender o Brasil.
Ascânio Seleme recordou a cobertura do assassinato de Chico Mendes, quando trabalhava no Globo em Brasília e acompanhou a atuação de Zuenir, então no Jornal do Brasil. Também descreveu diferentes dimensões do colega: o repórter, o pensador e o ser humano com quem trabalhou a partir de 2001.
Arthur Dapieve, que esteve com Zuenir no Globo e no Jornal do Brasil, falou sobre a perda de alguém presente em trajetórias profissionais e pessoais de muitas pessoas.
Fausto Fawcett lembrou que Zuenir ajudou a dar visibilidade ao funk surgido nas favelas do Rio. Rubem César Fernandes, antropólogo e fundador da ONG Viva Rio, afirmou que o escritor participou das primeiras reuniões da organização, criada em 1993, e registrou em “Cidade Partida” a mobilização contra a violência na cidade.
Nesta quinta-feira (24), às 16h, a ABL realiza a Sessão da Saudade, ritual de despedida do acadêmico antes da declaração oficial de vacância da cadeira. Depois da cerimônia, serão abertas as inscrições para a cadeira 32, que tem Manuel de Araújo Porto-Alegre como patrono. O médico e escritor Drauzio Varella deve se candidatar e é apontado como favorito para a eleição do novo imortal.








