RIO DE JANEIRO — A memória de 1968 atravessa parte central da obra de Zuenir Ventura, jornalista e escritor mineiro que morreu nesta terça, 22 de setembro de 2026, aos 95 anos, em casa, no Rio de Janeiro. A cidade marcou sua trajetória profissional e pessoal.
Em “1968: O Ano Que Não Terminou”, lançado em 1988, Zuenir tratou da ditadura militar no Brasil, do AI 5, do fechamento do Congresso e da violência e repressão daquele período. O livro também registrou manifestações artísticas como a Tropicália e os festivais de música. A obra inspirou “Anos Rebeldes (1992)”, minissérie da Globo escrita por Gilberto Braga.
Livros que transformaram fatos em personagens
A produção do jornalista percorreu temas políticos e sociais por mais de seis décadas. Em “Cidade Partida”, escreveu sobre os dias posteriores à chacina de Vigário Geral, no Rio de Janeiro, relacionando o episódio à desigualdade social e à violência urbana.
Já “Chico Mendes: Crime e Castigo” abordou o assassinato de Chico Mendes, apresentado no texto como o maior ambientalista brasileiro. Pelo livro, Zuenir recebeu os prêmios Esso e Vladimir Herzog.
Em 2008, publicou “1968: O Que Fizemos de Nós”, retomando aquela década a partir do tempo transcorrido e dos impactos deixados na memória de quem viveu os acontecimentos. No mesmo ano, recebeu uma honraria da Organização das Nações Unidas (ONU) por estar entre os cinco jornalistas brasileiros que mais contribuíram para a defesa dos direitos humanos.
Uma trajetória além dos livros
Antes do jornalismo, Zuenir trabalhou como pintor de parede e office-boy e chegou a considerar o sacerdócio. Defensor da liberdade, valorizava o encontro presencial como parte da profissão e também reconhecia o silêncio como uma forma de resposta.
Em 2018, aos 87 anos, foi homenageado na 13ª edição do Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, em São Paulo. Na ocasião, também foram lembradas as cinco décadas de 1968.
Imortal da Academia Brasileira de Letras, Zuenir ocupou a cadeira que havia sido de Ariano Suassuna. Em suas páginas sobre o período que não terminou, deixou uma síntese: “se não como exemplo, pelo menos como lição”.
Zuenir Carlos Ventura deixa a esposa e os filhos Mauro e Elisa Ventura, também jornalistas. O velório acontece hoje (23), na sede da Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro.








