A obra de Zuenir Ventura atravessou momentos decisivos da história recente do Brasil e chegou à televisão com “Anos rebeldes”. Lançado em 1988, “1968 — O ano que não terminou” foi uma das referências da minissérie escrita por Gilberto Braga e exibida pela TV Globo em 1992. A outra obra central para a produção foi “Os carbonários”, de Alfredo Sirkis.
Zuenir morreu nesta terça-feira (22), aos 95 anos. Em seus livros, abordou temas como ditadura militar, violência urbana, desigualdade, direitos humanos e Amazônia. A reportagem, para ele, se desdobrava em narrativas sobre personagens, conflitos e transformações do país.
O ano que marcou uma geração
Publicado duas décadas depois de 1968, o livro reconstitui a movimentação política, cultural e comportamental daquele período e o caminho que levou ao endurecimento da ditadura militar com o AI-5, decretado em 13 de dezembro. Zuenir acompanhou os acontecimentos de perto e foi preso no início de 1969, permanecendo três meses encarcerado.
A obra vendeu mais de 400 mil exemplares, conforme registros da Memória Globo e da Academia Brasileira de Letras. Quatro anos depois de sua publicação, inspirou “Anos rebeldes”, minissérie que acompanhava jovens no Rio durante os anos de ditadura, com Cássio Gabus Mendes e Malu Mader nos papéis centrais.
A relação do jornalista com aquele período continuou em “1968: O que fizemos de nós”, publicado em 2008. O livro retoma personagens, ideais e mudanças daquela geração, além de tratar das heranças dos movimentos feminista, negro, LGBT e ambiental e das transformações nos costumes.
Violência urbana e Amazônia
Em “Cidade partida”, publicado em 1994, Zuenir reuniu o resultado de cerca de dez meses de circulação por Vigário Geral, na Zona Norte do Rio. A comunidade havia sido cenário, em agosto de 1993, da chacina em que 21 moradores foram mortos por policiais.
O livro-reportagem, vencedor do Jabuti, expõe as barreiras econômicas e sociais entre diferentes partes da cidade. A investigação acompanha moradores de Vigário Geral e iniciativas da sociedade civil que buscavam responder à violência.
Outro trabalho fundamental nasceu no Acre. Em 1989, poucos meses depois do assassinato de Chico Mendes, Zuenir passou cerca de um mês na região para produzir a série “O Acre de Chico Mendes” para o Jornal do Brasil. A investigação recebeu os prêmios Esso e Vladimir Herzog e, mais tarde, foi ampliada em “Chico Mendes — Crime e castigo”, publicado em 2003.
Durante essa apuração, o jornalista conheceu Genésio Ferreira da Silva, testemunha-chave do assassinato de Chico Mendes. A relação entre os dois foi retomada posteriormente nas memórias de Zuenir.
Memórias construídas com os outros
Em “Minhas histórias dos outros”, lançado originalmente em 2005, Zuenir reconstrói a própria trajetória a partir das pessoas que encontrou durante décadas de jornalismo. Nelson Rodrigues, Betinho, Hélio Pellegrino, Darcy Ribeiro e Glauber Rocha estão entre os personagens do livro.
A obra também passa por episódios ligados à ditadura, à redemocratização, à revolução sexual, à chegada da aids e à expansão do narcotráfico. Uma edição revista e ampliada foi lançada em 2021. Por ela, Zuenir recebeu em 2022 o prêmio Faz Diferença, na categoria Livros.
A bibliografia do autor inclui ainda “Inveja — Mal secreto”, de 1998; “Crônicas de um fim de século”; “O Rio de J. Carlos”; “Cultura em trânsito — Da repressão à abertura”, com Heloísa Buarque de Hollanda e Elio Gaspari; e o romance “Sagrada família”, lançado em 2012.








