O livro “1968 — O ano que não terminou” transformou a experiência de Zuenir Ventura em uma referência para compreender a agitação política e social daquela década. Publicada em 1988, a obra retratou o Brasil que entrava na fase mais violenta da ditadura militar iniciada em 1964 e inspirou a minissérie “Os anos rebeldes”, exibida em 1992.
Zuenir morreu nesta terça-feira (22), aos 95 anos. A família confirmou a morte. Jornalista e imortal da Academia Brasileira de Letras, ele também deixou livros sobre violência, desigualdade, direitos humanos e personagens da vida brasileira.
Das salas de aula às redações
Nascido em 1º de junho de 1931, em Além Paraíba, Zuenir Carlos Ventura era filho de José Ventura, pintor de parede, e Herina de Araújo, dona de casa. Aos 11 anos, mudou-se com a família para Nova Friburgo, na região serrana do Estado do Rio. Durante a adolescência, ajudou o pai e trabalhou como office-boy, sem abandonar os estudos.
Ele ganhou uma bolsa em um colégio em troca de dar aulas para crianças do então primário. A experiência alimentou o sonho de ser professor. Aos 20 anos, mudou-se para o Rio e cursou Letras Neolatinas na Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Na faculdade, teve aulas com Manuel Bandeira, Alceu Amoroso Lima e Cleonice Berardinelli. O professor Celso Cunha o convidou para dar aulas de português, enquanto Hélcio Martins o indicou para uma vaga de arquivista na Tribuna da Imprensa. Dali, Zuenir passou à reportagem.
Em 1960, escreveu um texto sobre Albert Camus, depois que o escritor e filósofo franco-argelino morreu em um desastre. “Tudo na minha vida aconteceu por acaso”, contou Zuenir ao Memória Globo em 2011, ao relembrar o início da carreira jornalística.
A partir da década de 1960, trabalhou como editor internacional do Correio da Manhã, diretor de redação da revista Fatos & Fotos, chefe de reportagem de O Cruzeiro e editor-chefe da sucursal Rio da revista Visão. Em 1967, participou da criação do jornal alternativo O Sol. Também passou uma temporada na França como bolsista no Centro de Formação de Jornalistas, de Paris.
Reportagens sobre o país
Mesmo ocupando cargos de comando, Zuenir manteve o trabalho de apuração nas ruas. Foi professor da Escola de Comunicação da UFRJ e da Escola Superior de Desenho Industrial, onde ganhou o apelido de Mestre Zu. “Nada substitui o olho no olho”, afirmou em entrevista à Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo em 2008.
A vivência dos acontecimentos políticos e sociais também esteve no centro de “Cidade partida”, livro publicado em 1994 e vencedor do Prêmio Jabuti naquele ano. Para produzir a obra, o jornalista visitou várias vezes Vigário Geral, no Rio de Janeiro, comunidade onde policiais haviam promovido uma chacina que matou 21 pessoas inocentes no ano anterior.
Em 1989, após um mês de apuração, Zuenir produziu para o Jornal do Brasil uma série sobre o assassinato do seringueiro e líder ambientalista acriano Chico Mendes. O trabalho recebeu o Prêmio Esso e o Vladmir Herzog de jornalismo e, em 2003, foi transformado no livro “Chico Mendes – Crime e castigo”.
O jornalista voltou ao período de 1968 em “1968: O que fizemos de nós”, lançado em 2008. A obra revisitou os ideais dos anos rebeldes e abordou transformações nos costumes, o corpo, as drogas e a política.
A cadeira na Academia
Em 1999, Zuenir estreou como colunista do GLOBO. Em 2014, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, na cadeira deixada pelo dramaturgo e intelectual paraibano Ariano Suassuna. Na posse, foi recebido por Cleonice Berardinelli, sua antiga professora e então colega na instituição.
A carreira rendeu outras distinções. Em 2008, a ONU concedeu a ele um prêmio especial por sua contribuição à defesa dos direitos humanos no país ao longo de 30 anos. Em 2010, foi eleito “O jornalista do ano” pela Associação dos Correspondentes Estrangeiros.
Aos 91 anos, em 2022, recebeu o prêmio Faz Diferença, na categoria livros. No ano anterior, havia lançado uma versão ampliada de “Minhas histórias dos outros”, com lembranças de personagens como Glauber Rocha, Nelson Rodrigues, Betinho e Carlos Drummond de Andrade.
Zuenir deixa a mulher, Mary Ventura, e os dois filhos do casal: o jornalista Mauro e a editora Elisa.








