SÃO PAULO — O Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp) abriu na sexta-feira 4 a exposição Histórias Latino-Americanas, com 187 trabalhos de 148 artistas de 20 países. Distribuída pelos cinco andares do anexo Pietro Maria Bardi, a mostra questiona os modos como a colonização construiu, apagou e refez imagens sobre a América Latina.
A visita foi organizada de cima para baixo, sem seguir uma ordem cronológica ou uma divisão por países. Os núcleos temáticos colocam em contato diferentes períodos e experiências, deslocando a ideia de uma narrativa única sobre a região.
“Pensando na ideia de ‘histórias’ no plural e com letra minúscula, em contraposição à História no singular e com maiúscula, quisemos, desde o início, colocar em diálogo diferentes temporalidades”, afirma Julieta González, que assina a curadoria com Amanda Carneiro.
Colonização, natureza e religião
No sexto andar, a exposição começa com Quadro Fundo, de Adriana Varejão. A artista interfere em uma pintura de Albert Eckhout, integrante da missão enviada ao Brasil por Maurício de Nassau no século XVII. Sobre a imagem europeia, Varejão acrescenta relevos que remetem a sangue, carne e corte.
A obra está no núcleo O Mundo ao Revés, diante de uma escultura de São Francisco de Paula feita por Aleijadinho no século XVIII. O percurso também reúne imagens peruanas de devoção à Virgem Maria e à Nossa Senhora dos Remédios, além de uma fotografia mexicana que retrata uma mulher contemporânea como santa.
A relação entre colonização e natureza aparece em trabalhos de León Ferrari, Sérgio Vega, Rosana Paulino e Denilson Baniwa. A curadoria mostra como a paisagem foi tratada pelos invasores como algo disponível à apropriação, enquanto povos indígenas, africanos escravizados e seus descendentes eram associados ao próprio cenário natural.
Promessas de progresso e formas de autonomia
No quarto andar, o núcleo Retórica do Progresso aborda projetos do século XX, como fábricas, rodovias, represas e planos urbanos. As obras também observam como essas promessas de futuro carregavam mecanismos de controle social.
Entre elas estão Trabalhadores de Cal, de Djanira; Maldecidos, da Associação de Artistas Populares de Sarhua; e trechos de ABC da Greve, de Leon Hirszman. No andar seguinte, Sociedades Americanas desloca o foco para quilombos, cooperativas, movimentos camponeses e pedagogias populares.
A primeira obra desse núcleo é ABC do Quilombismo, de Abdias Nascimento, que apresenta o quilombo como possibilidade de autonomia coletiva e reorganização política e econômica. Já em Estamos em Salsa, Cildo Meireles grava mensagens políticas em garrafas de Coca-Cola, enquanto Antonio Caro usa a identidade visual da marca para escrever Colômbia.
A caminhada termina no segundo andar, no núcleo A Queda do Céu, título inspirado no livro de Davi Kopenawa e Bruce Albert. Dali, a Avenida Paulista pode ser vista entre as obras que encerram o percurso.
A exposição dá continuidade, desde 2016, à série do Masp dedicada às “histórias”, que já abordou sexualidade, diáspora afro-atlântica, feminismo e povos indígenas. A proposta é manter em primeiro plano as micro-histórias e questionar as grandes narrativas.








